sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal


Texto e fotos: Maria Fernanda Seixas

Natal passado fugiu completamente do tipo de Natal no qual estou acostumada. Meus pais, desde sempre, cultivaram na família essa coisa do Natal ser uma noite mágica. Com luzes, música natalina, milhões de enfeites, ceia, pai vestido de Papai Noel. Com a família, eu acabo reproduzindo isso tudo. Mas em 2009 a proposta foi diferente. Fomos encontrar a família do pai do Otto lá na Tunísia (eles moram lá).

E a véspera do Natal coincidiu com o 4º dia de estrada pelo interior desse país. Estávamos em Matmata, cidade na beira do deserto do Saara, ao sul da Tunísia, antiga moradia dos chamados "trogloditas" (o sentido da palavra é homem que vive na caverna). Por lá, no verão, os moradores se protegiam do calor latente morando em casas cavadas no chão. Boa parte delas ainda é preservada, e ainda servem de refúgio (ou refresco) para muitas pessoas.




O lugar tem um visual tão peculiar que Matmata foi umas das principais locações do filme Star Wars (o ep. 1 e o ep. 4 tem várias cenas lá). Uma das locações, que era a casa do Luke Skywalker, virou hotel, e foi lá onde passamos nossa ceia de Natal (eu, Otto, os irmãos do Otto Bruno e Rebecca, o Erik, a esposa Renata, e a tia Cristine). Foi também em outro hotel no estilo "buraco no meio da terra" que nos hospedamos. Nada de luxo e nenhuma infra turística. Tomamos banho no banheirinho coletivo trash do hotel, que não tinha toalha (e na cidade só conseguimos comprar panos de chão novos para usar como toalha. Pense na minha felicidade). Mas, como era noite de Natal, nada tirou nossa felicidade. Na verdade esses detalhes deixaram tudo mais hilário.

Na "ceia", dentro da sala que foi uma das locações do filme. Comendo cuscuz.

 Na hora do amigo oculto.

Escolhemos um quarto grande que tinha cama para os 7. Os quartos com apenas uma cama eram caverninhas mega apertadas. Mal dava para ficar em pé. Então o quartão acabou sendo ótimo, porque foi onde rolou o amigo oculto (Por um acaso eu e Otto nos tiramos: ele ganhou um narguilê e eu uma lâmpada mágica que ainda não funcionou, rs). 




Mas no dia 24 (ou em qualquer dia do ano), em território árabe, o clima e o espírito de Natal passam longe. Nossa ceia foi feita no "restaurante" do hotel  que aparece no filme.

Museu no qual a caverna preserva os móveis que os trogloditas usavam.


Locação de Star Wars: Hotel Sidi Driss.



                                         
                                                            Olha aí a casa do Luke Skywalker.


Os simpáticos moradores de Matmata.

O povo é super simples. Sem luxo mas também sem miséria. Zero criminalidade.

                                    
Enfim... a noite teve tantas histórias engraçadas que não cabem aqui. Dia 25 também conhecemos lugares incríveis, mas falarei mais sobre eles quando fizer um post decente sobre a viagem pela Tunísia. Saudades da turma toda reunida. Erik, Renata, Tia Cristine e Rebecca, feliz Natal!!! O Cutu tá aqui em Brasília então o feliz Natal eu dou pessoalmente! Pros demais familiares e amigos, Feliz Natal também! Que estejam todos super felizes para a festa que já vai começar!


domingo, 12 de dezembro de 2010

Púcon - Porta da patagônia chilena


Friozinho, céu azul, lagos de água cristalina, natureza exuberante. Cordilheiras dos Andes, neve, bosques mágicos, cavernas, casinhas de madeira na mais tradicional arquitetura alemã. Alta gastronomia, piscinas termais, excelente estrutura hoteleira, vinhos deliciosos e muita adrenalina. Mesmo com tantas qualidades, nada chama mais atenção ou atrai mais turistas do que um único e imenso detalhe que é a marca registrada da província chilena de Cautín: o vulcão Villarrica.


Do alto de seus 2.847 metros de altitude, ele tem tudo o que se espera de um belo vulcão: corpo cônico, neve, cratera aberta no cume exalando fumaça (conhecida como fumarola) 24 horas por dia. Ao seu redor, diversos vestígios de erupções passadas, como as ravinas formadas pelos rios de lava que rasgaram a floresta araucária no sopé do vulcão e cavernas cavadas pelo fogo. No seu topo, não só a possibilidade de ver o magma em ebulição, mas também a indescritível paisagem que inclui a cidade de Pucon, os vulcões Lanín, Quetrupillán, Osorno, Llaima, Choshuenco e Lonquimay e os lagos Villarrica, Caburgua, Calafquén, Huilipilún, Neltume e Panguipulli.



Para aumentar o charme, há ainda todo um misticismo que ronda a efervescente montanha: no passado, era chamada pelos índios Mapuches de Rucapillán. Em português: "morada do demônio". Agora, se para uns a fumarola do Villarrica representava sinais das chamas do inferno, para tantos outros, seu estado de constante atividade vulcânica só aumenta a vontade de se aventurar pela região. 


Reunião das privadas turistas

Durante todo o ano é possível escalar o Villarica até seu cume. Pelas cidades dos arredores, diversas empresas de turismo vendem o pacote de escalada. A subida leva de quatro a seis horas de caminhada e nela se aventuram desde adolescentes a pessoas bem mais velhas.

O grau de dificuldade é médio e o passeio é cansativo. Ainda sim, qualquer principiante corajoso está apto a realizá-lo – basta ter um bom preparo físico. Perto do fim da escalada, a possibilidade de escorregões fatais é real. No entanto, os guias locais garantem que por lá os acidentes são bem raros, e que o risco vale a recompensa: observar a lava, sentir o cheiro da sulforosa fumarola e aproveitar a fascinante vista do cume. O caminho de volta, muitas vezes, é facilitado pela prática do que chamam de "ski bunda", ou seja, você senta e escorrega pela neve vulcão abaixo.



Além da subida, com a chegada do inverno, o Villarrica se torna um dos points mais cobiçados do Chile para a prática do ski e do snowboard, com excelentes pistas para principiantes e experts da neve. O Centro Ski Pucon, situado a 14km de Pucon (20 minutos, em média) abre lá pelo começo de julho e fecha em outubro. O centro conta com um teleférico construído no século passado, 20 pistas, escola de ski e snowboard, mirante e restaurante. Para curtir a gigantesca atração, você pode optar por se hospedar na cidade de Pucon ou em Villarrica. Ambas preparadas para a leva de turistas que querem usufruir um pouquinho desse pedaço do paraíso andino.




É em Pucon - que conta com a infraestrutura mais preparada para os visitantes que querem conhecer o vulcão - que se iniciam as delícias do sul do Chile. À 780km de Santiago, a cidade foi batizada de a "porta da Patagônia chilena" e tem cerca de 30 mil habitantes. É possível chegar lá de carro e ônibus, ou pegar um avião até a cidade de Temuco e depois seguir de van, ônibus ou taxi à Pucon. Nas ruas é possível encontrar restaurantes finos, uma infinidade de lojinhas e galerias além de uma feirinha no centro que abre aos fins de semana, com preços mais atraentes e boas ofertas de prata, pedras semipreciosas e muito artesanato.


Pôr do sol em Pucon. Jader e yo.




 Nascer do sol...




Cavernas cavadas pela lava...




Outro ponto marcante é a herança da colonização alemã, que pode ser percebida na arquitetura das típicas casinhas de madeira, que espalham pela cidade o cheiro da fumaça de suas chaminés. Na rua principal, um semáforo instalado na sede da prefeitura é sempre alvo de olhares. É ele que indica o risco de erupção vulcânica. Ou seja, se a luz ficar vermelha, corra dali. A última grande erupção registrada foi em 1984, e atraiu a atenção de milhares de turistas que queriam assistir ao rio de lava que descia calmamente pelo vulcão. Antes disso, outras grandes erupções, como as de 1971, 1964 e 1948 também entraram para a história da região.
  


 O tal do canopy (sim eu amarelei)


A cidade conta com duas altas temporadas. Durante o verão, para os que procuram desfrutar das águas do lago Villarrica com todo tipo de esporte aquático, e no inverno, quando o vulcão abre seu centro de ski para a prática de esportes na neve. Por lá, também é possível praticar rafting, trekking, canopy (que são imensos e radicais circuitos de tirolesas construídos no topo das árvores dos bosques), pedalar de mountain bike e cavalgar. Além do parque Villarrica, onde fica o vulcão, não deixe de visitar o Parque Nacional Huerquehue, onde está a belíssima lagoa Tinquilco e é possível caminhar pela milenar floresta de araucárias.


Se ficar vermelho, corra...

Outra atração típica de Pucon são os banhos em piscinas de águas termais, que se alimentam das nascentes que passam pela região do vulcão. São várias opções de termas. Das mais rústicas, com poços naturais, as com piscinas externas. Alguns termas possuem chalés para hospedagem, e oferecem passeios como cavalgadas, canopy, além de restaurantes sofisticados. Esse texto faz parte do caderno que escrevi sobre o Chile para o caderno de turismo do Correio Braziliense





sábado, 11 de dezembro de 2010

Sewell - a cidade fantasma dos Andes

Texto e  fotos: Maria Fernanda Seixas


Sabe aqueles passeios que na hora parecem uma grande furada, mas depois se tornam em uma das melhores lembranças da viagem? Visitar Sewell funciona mais ou menos assim. A aldeia é como uma cidade fantasma cravada na região de O'Higgins, a uma hora de Santiago e a uma altitude de 2200 metros, em plena cadeia montanhosa dos Andes. Hoje, considerada patrimônio mundial da Unesco, Sewell foi construída em 1904 como moradia para cerca de 14 mil trabalhadores e seus familiares, que chegavam ali para trabalhar na maior mina de cobre do mundo.


A primeira vista, a dura geografia da inóspita cordilheira dá lugar às cores vivas de diversos prédios de madeira. E centenas de escadas que faziam a vez das ruas, inexistentes por lá. Uma imagem diferente de tudo o que você já viu.



Isolado de tudo, o povo de Sewell desenvolveu dinâmicas sociais próprias para lidar com as condições extremas de vida. Como lá o inverno é rigoroso, as casas tinham túneis que davam acesso às escadas, uma vez que a neve acumulava tão rapidamente nas portas que impedia as pessoas de circular. Os alojamentos eram separados em espécies de “castas”: o dos diretores eram confortáveis e possuiam banheiros privativos, piscina aquecida e quartos de diversos tamanhos. Já os do mineiros solteiros, por exemplo, comportavam até sete rapazes por quarto, que dormiam amontoados em beliches.


Os acidentes, tanto na mina quanto na aldeia, eram muito comuns: desde crianças que despencavam das escadarias ou das sacadas dos alojamentos e avalanches que engoliam dezenas de pessoas, a tragédias quase que diárias na até então rústica e perigosa mina. Ainda assim, a oportunidade de morar lá era tentadora para quem ganhava tão pouco nos campos.



As sedes sociais eram os locais onde os mineiros podiam se divertir: o boliche, o cinema e o campo de futebol eram as atrações mais disputadas. Mas a diversão tinha limites, estipulados pelo Departamento de Bienestar Social : os rapazes simplesmente não podiam conversar com as moças de lá. Se uma única palavra fosse trocada, e algum dos guardinhas presenciasse a cena, ou o casal desordeiro se casava, ou, no caso do rapaz não querer se casar, toda a família da jovem era expulsa de Sewell. Nem a lei seca local era tão assertiva.




A bancarrota da cidade se deu nos anos 1970, quando uma moderna estrada foi construída para facilitar o acesso de outras cidades à mina de cobre. Aos poucos, todo mundo largou a vida nas montanhas para morar em cidades como Rancagua, a 90km dali. Ainda sim, os antigos moradores garantem que foi em Sewell que passaram os melhores dias de suas vidas. Prova disso são as festas que rolam na Praça Morgan, antigo ponto de encontro da aldeia abandonada. Eles se reúnem e relembram a história da cidade com música, apresentações de dança e muito saudosismo.



Hoje, restam 50 prédios originais e em restauração. Dá para conhecer o Museo de la Gran Minería del Cobre, ou mesmo visitar a nova mina de cobre (Mina El Teniente, na foto abaixo), mais moderna e segura.



 A visita pede a presença de um guia e o uso de vestimentas de segurança e máscaras. 


Eles permitem que os visitantes assistam a gigante máquina que mói as pedras, ande nos túneis escuros e acompanhe os processos da extração do minério, fundição e o despacho dos lingotes. 


Para os bons de garfo, é possível almoçar com os mineiros no esquema bandejão. A comida é quase intragável, mas a experiência é interessante.



Para agendar visitas à mina: www.vts.cl



Os mineiros...


A caminho de Sewell, subindo as cordilheiras, dá para admirar o vale onde está Santiago. Dá pra ver a poluição presa no vale.


Eu e Daniel Brunet na máquina que mói as pedras. Haja poeira.


Jáder e yo

(Esse texto faz parte do caderno que escrevi sobre o Chile para o caderno de turismo do Correio Braziliense)